A Dissimulação

quinta-feira, março 22, 2012

«E é assim amigos que, no meio destas aldrabices, vamos caminhando para a velhice...»

Se todos nós de um dia para o outro resolvêssemos dizer frontalmente o que pensamos, o mundo tornar-se-ia bem diferente do que é. Digamos mesmo que entraria numa crise de consequências imprevisíveis, pois a estrutura social em que vivemos não está preparada para semelhante banho de franqueza. Por norma, o Homem dissimula os seus pensamentos. Qualquer que seja a sua condição, instrução, formação moral ou quadrante político, trata sistematicamente de ocultar os seus sentimentos simulando ideias que não tem, juízos e julgamentos que não faz e convicções de que não partilha. Em suma, vive camuflado pela arte de dissimular. E se isto é verdade em relação às coisas que se dizem no dia-a-dia, é-o ainda mais relativamente ao que se escreve. Porque o que fica escrito tem um peso que as palavras faladas não têm (essas leva-as o vento). Se um intelectual machista acha que as mulheres são todas - desculpem o calão - umas "vacas" e pensa que o lugar delas é na cozinha a tratar das panelas e na cama com o marido, jamais se atreverá a dizê-lo em público e, muito menos, a escrevê-lo. No limite, insinuará que "séculos e séculos de submissão ao homem marcaram negativamente a condição feminina", mas é suficientemente hipócrita para afirmar que "a mulher, com qualidades e capacidades iguais às do homem, não tem ainda na sociedade o papel que merece". Se perguntarmos a um tubarão (desses que passam por cima de tudo e todos para abocanhar milhões) o que significa para ele o dinheiro, a resposta sincera e natural seria que não vê nem pensa em outra coisa e que é louco por notas como o macaco por bananas. Mas como isto não é resposta que se dê quando se quer manter uma reputação, o nosso homem afivelará uma máscara de superioridade e desprendimento e dirá que o dinheiro é uma coisa secundária ou, no máximo, um meio necessário para atingir nobres objetivos. Se for suficientemente piroso, será até capaz de afirmar que para ele, o dinheiro, "não é felicidade". Se, na conjuntura em que atualmente vivemos, alguém perguntasse frontalmente a um desses politiqueiros baratos e acomodatícios, se ele, afinal, é de esquerda ou de direita, uma vez que tem andado entre umas e outras, a resposta coerente seria que, em cada momento, procura aparentar a cor do partido, da coligação ou da tendência que está no poder. Mas é óbvio que não vai dizê-lo! Com o sorriso benévolo de quem tem uma grande experiência de vida e da falibilidade dos homens, o nosso camaleão debitará que isso de esquerdas e direitas não tem para ele grande significado e que a sua posição será sempre ao lado da inteligência e dos grandes princípios orientadores do progresso social.
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Cuidado com os teleféricos.
 

6 comentários:

Tânia Coutinho disse...

Tu próprio, terias a coragem de dizer tudo o que pensas?

Ivan Mota disse...

"dizer tudo"? é claro que não. seria, provavelmente, preso no minuto seguinte. contudo... considero-me franco o suficiente para não deixar passar em claro aquilo que me faz bem, penso ou acho.

Mariana Baptista disse...

Mesmo assim há um outro tipo de "gente" que me consegue irritar bem mais! Aquele tipo de pessoas que critica por criticar, que ouve ali e agora reproduz aqui! E que quando confrontados com algo contraditório (obviamente que não se sabendo justificar) se tornam prepotentes! Arghhh, a sério, não consigo!

Ivan Mota disse...

Tenho que concordar contigo. Essa máfia de gente é muito irritante.

(PS: adorei o teu blog ... ... ...)

b ps disse...

Olá,
ainda bem que voltaste aos textos, como referiste há uns tempos, porque, até agora, tenho estado a adorar.
Beijinhos,
Beatriz Portugal Santos

AL disse...

Olá Ivan!
Que bom teres "voltado aos textos". Adorei (também) este, a lógica criativa com que vais desdobrando o raciocínio.. Já te 'profetizei' escritor n1 coment. do fb, e aqui estás em sintonia com o Saramago, relativamente a essa coisa de sermos absolutamente transparentes. Eu cultivo o lema sp q posso, às vezes dou-me bem-mal! :-)e tu - acho que o és também - no único sentido do termo que entendo: positivo, verdadeiro, de 'alma escancarada'.
bjinho grande!

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