Vou eu ... ou vais tu?

sexta-feira, outubro 03, 2008

É com algum amargo de boca que resolvo - ao fim de 19 anos de existência - renunciar.

Chegou a minha hora..acabou-se! Não sabem do que falo? .. Bom, acabo de rescindir contrato com uma patogenia crónica que me caracteriza desde tenra idade...a mim e a 90% da população deste país.

[...] falo do Síndroma Vou eu Vais tu (VEVT).

Que levante o dedo quem nunca quis/tentou/incentivou/desafiou um idoso a entrar num autocarro mesmo que isso signifique passar-nos à frente? Imaginem o caso.

Sexta-Feira, 3 de Outubro de 2008.
15h05 - Tarde soalheira e ventosa.

Saí de casa com a secreta esperança de apanhar um autocarro que me transportasse até Cacilhas. Logo aí vaticinei que algo ia correr mal. E correu.
Ao longe.. uma paragem de autocarro deserta. Chego. Sento-me. Passaram 2 minutos e 12 segundos até que.. vindo do nada; um casal (romântico) de idosos apareceu - com intenção clara de me estragar o dia. Com a cortesia - que me é reconhecida - brindei-os. «Boas tardes meus senhores». Houve de imediato uma - como hei de dizer? - química, reciprocidade. De forma igualmente cordial, cumprimentaram-me. Mais 4 minutos e lá vinha ele. 123 - Cacilhas. E é exactamente aqui que o problema começa.

«Façam favor..»
«Não não, entre..»
«Eu faço questão meu senhor, pode passar»
«Mas você estava primeiro, entre»

(silêncio)

O inevitável aconteceu. Eu avancei.. e em simultâneo o sedutor casal fez o mesmo. «Porra!» - pensei. Dentro do autocarro o condutor e a sua comitiva acompanhavam in loco toda a situação, com uma leve dose de impaciência.

(silêncio)

«Entre lá se faz favor..»
«Já lhe disse para entrar você»
«Você não é mais teimoso que eu...entre vá»

1 minuto e 13 segundos depois o autocarro arrancava.

Alguns minutos depois, já em Lisboa.
O eléctrico chegou. «Aleluia» - sussurrei. O eléctrico parou. [...] olhei para trás e vi outro casal idoso. As portas abriram-se. O pânico apoderou-se de mim. «E agora? Que berbicacho!». - pensei. Sem hesitações, sem embaraço, sem pensar duas vezes avancei. «Venceste miúdo! Conseguiste ultrapassar as tormentas!» - pensei, feliz.

Tinha acabado de me sentar. Estava ainda a celebrar o meu incrível feito, quando nisto..
«A palavra gentileza.. não lhe diz nada não?» - parodia um dos idosos. passando por mim. Todos os meus sentidos entram em alerta vermelho. Ódio, repulsa, malevolência.. «maldito sejas velhote! Como te atreves?» - pensei.

E continuo perturbado. Com mil raios, este mundo não é justo.
Vamos acabar com este flagelo.
_______________________
Cuidado com os teleféricos.

5 comentários:

Dancing Phalanges disse...

É o que ganhas em querer ser cavalheiro...

Ivan Mota disse...

Sim, tens razão. Mas os dias do cavalheirismo exacerbado chegaram ao fim. Foi a gota d'água.


Bem vinda sejas.

'stracciatella disse...

Realmente, essa coisa da cortesia e tal é complicada. Um dia sentei.me num daqueles bancos de autocarro vermelhos (para grávidas, idosos, doentes, pessoas com crianças de colo e afins) e dei conta de que a cor diferente servia para assinalar isso mesmo. Conclusão: senti.me imensamente culpada. Contudo, voltei a sentar.me, numa outra ocasião, desafiando a culpa que se apoderava de mim. Raios! Não consegui mais. Hoje em dia, passo as viagens de autocarro (em pé) a olhar para os bancos vermelhos vazios e a imaginar o tão mais confortável que seria a minha viagem se tivesse uma perna partida ou um puto na barriga...

Ritz disse...

Ahahah, Adorei.
Epah, devo dizer-te qe já me aconteceu algo parecido, não estás sozinho ;)

Ritz disse...

Ah e devo dizer-te, 123 é precisamente o meu autocarro, brilhante ivan, que coincidencia estrondosa x)

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